Leia logo a seguir uma entrevista feita pela colaboradora Inaraí Trombini com o designer de acessórios que se especializou na ressignificação de materiais descartados pela natureza.

 

Na velocidade do mundo atual em que vivemos e da necessidade de nos reconectarmos de forma física e tátil ao mundo surgem os movimentos chamados “slow”. Promovem uma vida menos acelerada e meios de produção mais conscientes. É desta temática que surge o trabalho do designer gaúcho, Fernando Bertolini, que através do design autoral e do upcycling propõe a produção de peças baseadas no design afetivo e “slow design”, que expressam significação através da afetividade e de uma identidade exclusiva presente em cada peça produzida.

 

Como foi essa transição de trabalhar com design de interiores e móveis, para a produção de acessórios?

Esta mudança aconteceu quando me mudei para Florianópolis. Antes, eu trabalhava com design de interiores e móveis. Devido à escassez de oportunidades para projetistas na ilha, optei por desenvolver uma marca autoral. A transição durou 4 meses. Sempre mantive uma coleção pessoal de madeiras, desde muito novo, uma paixão. A ideia inicial era transformar estas madeiras em móveis, porém devido as peças que possuía serem pequenas para a produção de objetos maiores, a produção de acessórios era mais viável para meu propósito que sempre foi: mostrar as diferentes nuances presentes na madeira. Pra começar, eu fiz uma coleção pequena de 50 peças, que tiveram boa aceitação, então percebi uma oportunidade interessante para desenvolver minha marca.

 

Quais suas influências hoje?

Bez Batti e Heloisa Crocco.

 

Você define seus acessórios num conceito de slow design, como é isso?

Deve-se ao fato da marca ser autoral e usar o upcycling para a produção, que engloba o reaproveitamento de materiais descartados pela natureza. Também através da produção limitada e totalmente manual, já na escolha dos materiais auxiliares como cordões e presilhas, são sempre pensadas opções que agridam e interfiram o menos possível no meio ambiente. A ideia da produção dos acessórios não serem pautados por coleções com estreia pré-definida também ajuda a caracterizar o produto como não consumível em escala.

 

Como funciona seu processo criativo?

Normalmente há um estímulo, de algum lugar que visitei e me marcou de alguma maneira.  A primeira etapa de produção se dá quando encontro um material que quero trabalhar, o corte vem em seguida e verificação das peças, se estão sadias para a produção e fico atento também para a coloração. Logo em seguida, e a escolha da parte da madeira que será utilizada na coleção que receberá beneficiamento através de lixa e acabamentos. Todas as coleções possuem uma linguagem, as primeiras peças que produzo vão definir todas as outras que virão, suas formas, cores e outras questões de aspecto dos acessórios. Normalmente, eu utilizo em torno de seis espécies em cada coleção. Por fim, completo o processo com as amarrações.

 

Sua inspiração vem muito de lugares que você visita, qual o lugar que mais o impactou?

A Chapada dos Veadeiros – “go”, por diversos motivos. Além de ser um lugar maravilhoso, de natureza exuberante e preservada, os materiais lá sofrem muita intempérie, então apresentam formas e texturas muito particulares. Tem muita madeira e pedra exótica lá, a correnteza da água faz um trabalho especial nelas. Fica numa região bastante chuvosa mas com sol também. Elas sempre são diferentes da primeira impressão externa da madeira.

 

Por que a escolha da madeira como material principal?  

São vários motivos. Aprendi a identificar as espécies e manipular a madeira com meu avô, que era marceneiro e fazia barris de madeira. Naquela época, eu já colecionava tanto pedras como madeiras. Quando comecei a estudar design sempre tentava usar madeira, o que era ainda muito difícil pela questão de padronização na produção. Outro motivo para a escolha da madeira é o processo de beneficiamento. Quando lixada, é que surgem as diferentes nuances da peça, é um material incrível de se trabalhar.

 

Quais os critérios para a escolha das madeiras que serão utilizadas?

Sempre levo em conta a questão de ela estar saudável ou não para produzir os acessórios. Pra isso, há sempre uma pré-seleção do que poderá ser utilizado. Isso responde muito também à durabilidade, e a vida útil da peça, também responde à sustentabilidade, ajuda a frear o descarte precoce. Já que não faço extração da madeira, ou seja, não corto de árvore, essa questão de verificar a qualidade é muito importante.

 

Não existe a extração de madeira para as peças?

Eu utilizo somente o que encontro de descarte natural, como galhos quebrados ou madeiras que foram cortadas por outros e descartadas também. Às vezes, até mesmo galhos que são cortados no ambiente urbano, já consegui peças lindas de árvores podadas pela prefeitura aqui em Florianópolis mesmo. E ainda tenho peças que foram cortadas pelo meu avô que podem datar de até cem anos, não vou desperdiçar agora que já está lá. Nunca corto.

Como é feita a escolha dos materiais auxiliares, cordões e presilhas?

Gosto da ideia de ser responsável por 100% da produção das minhas peças, isso pra mim também é sustentabilidade. Eu uso apenas cordões de algodão, não uso metal por uma questão de não me ser atrativa a ideia de comprar algo que já esteja pronto para compor os acessórios. O metal também tem toda a questão de ter um processo altamente poluente, até chegar no consumidor. Gosto de fazer as minhas amarrações com cordão mesmo, isso até caracterizo como meu diferencial nos acessórios que produzo, já que é uma técnica que ainda estou dominando.

Nesta seção, falamos com artistas e designers que trabalham com materiais descartados e criam novas formas e utilidades para eles. Imagine que você está sentado numa cadeira super confortável, cuja madeira já navegou pela costa brasileira. Esta é uma das histórias que o artista entrevistado pela Revista Reartezar conta para você a seguir.

Reartezar é um veículo de comunicação que contribui na educação sócio-ambiental, destacando diversas maneiras de reciclar materiais e reutilizar objetos.

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