Nesta seção, falamos com artistas e designers que trabalham com materiais descartados e criam novas formas e utilidades para eles. Imagine que você está sentado numa cadeira super confortável, cuja madeira já navegou pela costa brasileira. Esta é uma das histórias que o artista entrevistado pela Revista Reartezar conta para você a seguir.

RR - Como conseguiu exibir a poltrona San Diego na Califórnia em 2016?

EL - Eu cheguei em Sausalito para um trabalho voluntário na construção de um navio. Uma amiga informou que havia uma exposição exclusiva para arte com materiais reutilizados (Reclaimed-Elevating The Art of Reuse). Entre os 300 trabalhos apresentados, o meu foi um dos 25 selecionados para expor. O evento foi no Minnesota Street Project, em São Francisco, em outubro de 2016.

De que maneira a obra foi apresentada ao público?

Foi criado um display, e a cadeira foi elevada do piso cerca de 45 centímetros. Finalizei com cera e na corda eu coloquei amaciante de roupas, produzindo um efeito que criava uma sensação de maciez. A exposição foi muito interessante. Todos os finais de semana eu visitava a exposição que durou um mês. Eu mesmo explicava para os visitantes como ela tinha sido criada e produzida. Conheci muitos artistas que também viram meu trabalho.

Quais os materiais usados?

Eram dois lemes antigos de madeira, manílias de ferro e cordas de narcos.

A peça foi feita lá mesmo?

É o meu design principal. Ela é feita com madeira de barcos antigos. Eu construí aquela lá na oficina do navio. Depois do trabalho voluntário, eu tocava o projeto da poltrona. Em dezembro de 2015, eu conheci esta organização que está construindo um veleiro de 132 pés, modelo Brigantine, chamado Matthew Turner, que era a embarcação principal na baía de São Francisco na época do “Golden Rush”, no começo do século XIX. Eu podia usar todas as máquinas para produzir a cadeira e ainda havia o material de navios afundados, que eram retirados do fundo da baía. Eu podia pegar isto e reaproveitar. Então, fiz a primeira poltrona para esta exposição.

As pessoas na oficina do navio gostaram da San Diego?

A média de idade dos voluntário é de 68 anos. Eu sou o mais novo. Há profissionais de todas as áreas desde médicos a carpinteiros. Eles notaram minha dedicação. O pessoal gostou da evolução do projeto. Houve gente que contribuiu com detalhes, sugerindo encaixes da carpintaria tradicional, que não usa tanto as máquinas e sim ferramentas manuais como formões e plainas de mão.

Você negociou esta peça?

Com o final desta exposição, e levei a cadeira para a oficina e ela ficou exposta no escritório do navio. Então um dos voluntários comprou a cadeira. Esta foi a primeira de quatro cadeiras que eu construí lá e vendi todas elas. As outras três foram feitas com resíduos que sobravam das madeiras no processo de construçã do navio.

Qual o nome do seu projeto pessoal ao qual você vem se dedicando há 4 anos?

Chama-se “Elaya Design”. É fundamentado na criação e produção de móveis com madeiras de barcos e casas antigas. Não tenho interesse em crescer e virar uma indústria. Este trabalho é parte do meu estilo de vida.

Onde começou a sua vontade de reciclar materiais?

É interessante, porque quando eu tinha 19 anos, meus pais e eu abrimos uma empresa de coleta de entulhos, em Balneário Comboriú (SC). Já naquele época, percebi a quantidade de materiais jogados fora que poderiam ser reaproveitados. Eu não tinha tempo para me dedicar a reutilização destes materiais, porque eu estava muito ocupado na empresa. Há quatro anos, meus pais venderam a empresa. Naquela ocasião, eu conhecia um carpinteiro que estava se aposentando e queria vender algumas máquinas. Foi então que eu comprei, daí comecei a trabalhar e produzir minhas ideias.

Quantas peças você já produziu?

Umas vinte peças.

A sua casa também foi construída com material reutilizado? cadeira-sandiego-elias-lanzarini

Sim. Eu utilizei no assoalho da minha casa algumas partes da antiga casa de madeira que pertenceu aos meus pais e que foi desmontada depois que o terreno foi vendido. Esta vontade de reutilizar materiais já vem de muito tempo. Sempre vi tudo aquilo sendo descartado nas caçambas de entulho, só que para eu me dedicar exigiria um bom tempo, porque tinha que organizar e limpar, mas agora sim, eu posso fazer isto.

Qual a satisfação em fazer este trabalho agora? 

É incrível. É uma atividade com a qual me identifiquei e que já vejo o resultado do meu empenho com as pessoas apreciando o meu trabalho. Eu saio daqui do Brasil no final do inverno, para pegar mais seis meses de inverno lá em São Francisco e fazer parte da construção do navio Brigantine, mas eu não me importo. A energia é muito maior quando você faz o que gosta.

O que fazia nas horas de folga, na Califórnia?

Eu surfava em Ocean Beach, Fort Point, Bolinas. Meu compromisso era o aprendizado ligado ao trabalho no navio, estava envolvido com a organização, mas tinha horas que eu queria aproveitava as ondas naquele lugar maravilhoso.

Quais os projetos para o futuro?

Quero buscar outros materiais e com eles criar novidades em design. Eu vou reproduzir algumas peças da poltrona San Diego e algumas peças exclusivas com os novos equipamentos e utensílios que eu trouxe. Mas meu projeto mais audaciosos é a construção do meu veleiro, que vai ter 25 pés, com o mesmo design de um barco de corrida, mas não será em fibra de carbono e sim feito de madeira. Tudo será criado na oficina aqui na minha casa, na praia do Estaleiro. Eu começo, mas não sei quando eu termino, porque em julho retornarei para São Francisco, quando a construção do navio estará na fase final, e logo depois de pronto, ele vai navegar e passar por baixo da ponte Golden Gate.

Texto: Felipe Fernandes - Fotos: James Thisted

Reartezar é um veículo de comunicação que contribui na educação sócio-ambiental, destacando diversas maneiras de reciclar materiais e reutilizar objetos.

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